Irmã Alberta, o amor à flor da pele!
Roberto Malvezzi (Gogó)
Irmã Alberta foi companheira de caminhada na CPT durante muitas décadas, mas poucas vezes nos encontramos na vida. Porém, quando nos encontrávamos, era emocionante o abraço demorado e cheio de afeto que ela tinha para comigo, imagino que também para com os outros.
A última vez que nos vimos acho que ela já tinha perto de 90 anos. Aquele corpo pequeno, já envelhecido, continha uma surpreendente jovialidade, um sorriso permanente, como se a vida ainda lhe saísse pelos poros. Nasceu na Itália e mergulhou nas periferias geográficas, sociais e existenciais do povo brasileiro.
Esses dias vi que o MST lhe prestou uma honrosa e justa homenagem. Uma área do município de São Paulo, que iria ser transformado num lixão, foi ocupada por um grupo do movimento, e pasmem, Alberta estava à frente daquele grupo. Ainda mais, grande parte era gente que vivia nas ruas da grande cidade e não tinha lugar para onde ir. Pelo relato que li, ela colocou seu corpo já envelhecido à frente da ocupação, enfrentou a polícia e agora a área foi reconhecida pelo governo federal como de reforma agrária. Ali plantam hortaliças e outros alimento puros que se destinam aos assentados e às feiras da cidade. Agora ali está a Comuna Irmã Alberta.
A Igreja Católica não costuma canonizar pessoas que se dedicam à justiça socioambiental. Um caso raro foi Oscar Romero, mas só porque o Papa daquele momento era Francisco. Os critérios de canonização continuam sendo os dois milagres individuais, além da investigação rigorosa da vida pessoal. Entretanto, o milagre social e ambiental coletivo ainda não faz parte do script canônico. Falo de conquistas coletivas como essa, da qual Alberta era parte. Uma vida toda dedicada à justiça socioambiental numa sociedade – e muitas igrejas – que não toleram a justiça. Os milagres da partilha, como a partilha dos pães e dos peixes que Jesus fez para aquelas multidões, continuam a existir no Brasil e no mundo, mas eles não têm valor aos olhos canônicos da Igreja.
Alberta faz parte da minha ladainha pessoal de todos os dias, como tantos santos e santas do povo que conheci pelo caminho. Por isso, tenho a certeza de que ela ouve os pedidos dos pobres – e os meus – com o mesmo carinho de quando andava entre nós.





