Skip to main content

A Teologia do Domínio aplicada no Brasil.


A Teologia do Domínio aplicada no Brasil.

Roberto Malvezzi (Gogó)

A Teologia do Domínio é um projeto de poder. Ela afirma que são necessários sete “montes” (ou montanhas) para consolidar o domínio sobre a realidade de um país, o que nos evoca pelo avesso a Montanha dos Sete Patamares de Thomas Merton.  Vamos refletir sobre cada um desses “montes” e como a narrativa desse grupo evangélico, secundado por setores católicos, vai se estabelecendo na prática aqui no Brasil, mesmo que gerando profundas contradições.  

1. Monte da Família.

    A conquista da família é o primeiro passo, a base de uma nova sociedade. Essa é a conquista primeira e a mais importante.

    Quem trabalha nas bases da sociedade brasileira (eu tenho 50 anos trabalhando nas questões socioambientais a partir das pastorais como CPP e CPT) sabe o quanto o Brasil mudou com a razia feita nas bases da sociedade brasileira, alterando profundamente seus valores. A maioria das igrejas evangélicos é feita de pessoas simples, bons vizinhos, de bom trato, porém, vivendo uma espiritualidade de bolha, que não tem interferência nas causas socioambientais coletivas. Estão em nossas vizinhanças, nos cumprimentam, porém, se precisar alguma tarefa coletiva na rua, eles não comparecem, principalmente se tiver pessoas de outras religiões. Esses novos valores, de grupo, de bolha, causou um destroço nas bases sociais do Brasil e da Igreja Católica. Entretanto, o grande avanço evangélico nas bases sofreu abalos, diminuiu o avanço, 7 milhões abandonaram as Igrejas de bairros, exatamente por não concordarem com a submissão de seus pastores aos projetos bolsonaristas, a encarnação da Teologia do Domínio no Brasil. Muitos pastores mais lúcidos percebem esse estrago nas bases do próprio mundo evangélico.

    Esse grupo evangélico é secundado por grupos católicos de extrema direita, que promovem grandes eventos, condenam publicamente um comunismo imaginário, mas são incapazes de olhar o tipo de sociedade capitalista que devora florestas, águas e a riqueza nacional em favor de uma minoria que vive nababescamente às custas dos mais empobrecidos e vulnerabilizados. Nesse sentido, a Teologia do Domínio funciona como um Cavalo de Tróia nas periferias brasileiras, isto é, aonde a ideologia neoliberal não consegue chegar por seus próprios meios, chega através da religião.

    2. A Religião.

    O segundo monte é a “religião”. Na verdade, ela é a primeira. É preciso o domínio das consciências, moldando-as conforme os princípios dessa teologia. O lema básico é Deus, Pátria e Família. Nessa lógica, o grande inimigo é a Igreja Católica, mas também outras religiões, como as de matriz africana.  Por ser a mais numérica, a católica precisa ser atacada e destruída. A pastora afirmou em sua pregação: “eu profetizo a queda da Igreja Católica” (Ana Paula Valadão). É nesse sentido que precisam ser entendidos os ataques à CNBB e a Nossa Senhora Aparecida.

    O ponto mais vulnerável do catolicismo é a Piedade Popular, por isso o mais visado, com seus santos, suas devoções aos santos e Maria, suas imagens e sua pouca base bíblica. Despreparados, os católicos não sabem como reagir quando chamados de idólatras, adoradores de ídolos, que o Papa tem o número do anticristo, assim por diante. Como exemplo, no interior da Bahia, ainda na década de 80, um “paulista” que voltava de São Paulo para Campo Alegre de Lourdes, trouxe um saco de imagens de gesso na bagagem. Um dia chamou a comunidade para um ato de demonstração e quebrou imagem por imagem na paulada, mostrando à comunidade que o que elas adoravam era apenas um bloco de gesso. O estrago foi enorme, o medo, o pavor.

    Durante a preparação para o Sínodo para a Amazônia, num evento preparatório em Macapá, o coordenador dos Terreiros da Amazônia pediu socorro à Igreja Católica pelos ataques feitos por membros de igrejas evangélicas. Ele temia até pela vida dos membros dos terreiros. Assim mostrava que a intolerância não tinha limites.  

    3. A Conquista do Estado (A política).

    O controle do mundo político, portanto a conquista do Estado, é um dos montes essenciais dessa teologia-política do domínio. Penetrar no Estado, ter o controle tanto do executivo, como do judiciário, como do legislativo, em qualquer uma de suas esferas. Assim entendemos no Brasil a bancada evangélica, a presença de um pastor presbiteriano no STF – quando a Primeira-Dama da época entrou em transe em público -, a luta incessante para conquistar a presidência da república. E há a contrapartida, de políticos que bebem nessa fonte, tem as igrejas como palanques e currais, e se candidatam em nome de Deus, Pátria e Família.

    Aqui deve ser entendida a frase de um candidato, quando ele afirmou que a primeira coisa a fazer quando eleito seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.” É uma frase aparentemente religiosa, mas que se destina a arrecadar votos nos meios evangélicos adeptos dessa teologia. A frase é entendida por muitos como um “apito de cachorro”, isto é, aquele tipo de som que os humanos não ouvem, mas os caninos sim. Portanto, ela funciona como start para os entendidos do esquema, isto é, era hora de atacar a Igreja Católica para ganhar as eleições.

    Aqui também pode ser entendida toda aversão a Nossa Senhora Aparecida, ora considerada um “demônio de azul”, ora chutada, ora queimada nas praças. É toda semiótica religiosa, tanto católica como de terreiros, sendo chutada por outra cosmovisão. Por isso essa teologia se faz intolerante, agressiva e se pretende única num universo religioso tão plural quanto é o Brasil.

    4. A Educação.

    O controle do saber se torna fundamental, baseada em outros valores individualistas e pretensamente cristãos. Essa proposta se aproxima do “Iluminismo Sombrio” (Curtis Yarvin), um recuo na história. Daí a privatização das escolas públicas, a destruição das universidades públicas, o combate à pedagogia de Paulo Freire, o ensino privado dentro de casa, o combate à ciência, a toda forma de saber que não comunga com essa visão de mundo. Portanto, nada do que eles propõem é por acaso, ao contrário, faz parte de um plano de controle do saber e das consciências de uma população de 214 milhões de habitantes. Pensar sempre foi o maior perigo para quem pretende controlar as massas humanas.

    5. A Mídia.

    Aqui a proposta de controlar os meios de comunicação, as plataformas digitais, a internet, toda forma de divulgação de conteúdos. Assim podemos entender o domínio sobre as rádios comunitárias, a compra da TV Record por 45 milhões de dólares ainda em 1989, o livro “Plano de Poder: Deus, os Cristãos e a Política” (Edir Macedo), o financiamento de inúmeros programas de rádio e TV, o uso dos robôs, algoritmos e agora da IA na produção de conteúdos tantas vezes sem fundamento ou absolutamente construídos como fake News. O controle da informação é fundamental e pode se situar no exterior, através das plataformas e portais de internet que alimentam o mundo da contrainformação e desinformação tão presentes no mundo contemporâneo. Mais que nunca, o “divide et impera” reina sobre o mundo das comunicações.

    6. Negócios.

    Vamos relembrar Max Weber, no seu A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, quando ele registra que essa ética é o fundamento do capitalismo. Aí ele situa a doutrina da predestinação de Calvino como o fundamento por excelência desse espírito. Na interpretação dele, já que segundo Calvino as pessoas já nascem predestinadas à salvação ou à condenação, o que resta é descobrir em qual destino desses o simples mortal humano está situado. E qual é um dos sinais que revela se a pessoa está condenada ou salva? Exatamente o acúmulo de riquezas oriundas do trabalho feito com dedicação. Portanto, a riqueza acumulada não é só para a vida ser gozada aqui e agora, mas também como um indicativo que essa pessoa está predestinada à salvação. O fato de enriquecer-se, poupar, gera o espírito acumulativo do capitalismo. Depois o mundo secularizado vai abandonar a dimensão religiosa e ficará só com o espírito acumulativo e usufruidor do capitalismo.

    Nesse sentido o mundo dos empreendimentos evangélicos, desde os mais simples até os mais sofisticados, é lido nessa perspectiva de benção ou maldição. Não há um comentário sobre o enriquecimento à base da corrupção, nem afirmativo, nem negativo.

    Daí o desenvolvimento de uma “espiritualidade” individualista, no máximo de grupo eclesial, mas que não comunga as lutas sociais, nem a justiça, nem uma sociedade mais equitativa, mas somente a riqueza pessoal e, no máximo, familiar. Essa espiritualidade acaba sendo antissolidária e se reflete na prática de tantos grupos que não querem participar das lutas sociais e políticas para emancipar as classes mais vulneráveis, oprimidas ou marginalizadas.

    7. Cultura (Artes, entretenimento, etc).

    Segundo o entendimento desse setor evangélico, a arte e a cultura estão dominadas pela esquerda. É preciso combater esse predomínio da esquerda e fomentar a cultura centrada nos valores da direita, que eles julgam ser o espírito bíblico. Daí que podemos entender perfeitamente o ataque a Paulo Freire, a Gramsci, a Chico Buarque, Caetano Veloso, e toda ênfase no mundo das canções sertanejas e o chamado Gospel, tanto de origem evangélica como de origem católica.

    Os sertanejos têm laços profundos com financiamentos da direita, elos com prefeituras ligadas ao agronegócio, aos rodeios, e suas canções invariavelmente falam de bebida, mulheres na visão machista, traições e casos banais, de forma repetitiva e insistente. Um analista desse mercado do streaming musical nos disse que é preciso começar com 500 mil reais para que uma canção dessas comece a fazer sucesso.

    O mesmo acontece com o Gospel, tanto evangélico como católico. É um mercado poderoso baseado religião, uma espécie de showbusiness religioso, com cachês caros, normalmente bancados por prefeituras ou dinheiro público. As letras invariavelmente são compostas na primeira pessoa, subjetivista, repetindo palavras invariáveis e genéricas como aleluia, glória, amém. Não tocam no solo pedregoso da vida e evitam qualquer comprometimento com causas sociais, ambientais, solidárias e justas. As multidões acorrem a esses eventos e eles se tornaram o “rosto visível” tanto do mundo evangélico como católico.

    Claro que há outras igrejas evangélicas e há um pequeno resto católico nas periferias, no anonimato, nas durezas das condições do povo, que tantas vezes não tem dinheiro sequer para o deslocamento para uma comunidade distante, ou para fazer um evento simples de formação. Quando acontecem, é pelo processo de solidariedade (vaquinha) da própria comunidade.

    O futuro.

    Embora o Magistério da Igreja Católica tenha reforçado o compromisso com os empobrecidos e descartados, com a paz, com a justiça, com o ambiente, com os valores fundamentais do Evangelho, embora haja nessa mesma linha um conjunto de pastores, pastoras e comunidades evangélicas inseridas, o projeto de poder da Teologia do Domínio continua e está sendo aplicado no Brasil. Sempre resta a esperança de que o Evangelho verdadeiro triunfe. Todo projeto com pretensões ditatoriais gera suas contradições e seus contraditores. Porém, não podemos perder de vista essa luta pelo poder por grupos religiosos de maioria evangélica, secundados por amplos grupos católicos. Eles estão a serviço da direita nacional e internacional, com um projeto de poder autoritário que será uma tragédia imprevisível caso esse projeto venha se abater novamente sobre o povo brasileiro.  

    REFERÊNCIAS

    WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo [livro eletrônico] / Max Weber; tradução Mário Moraes — São Paulo: Martin Claret, 2020.   ePub

    WIKIPÉDIA. Teologia do Domínio. In https://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_do_dom%C3%ADnio  > Acesso em 30/09/26